Tesouro Direto: como investir e qual título serve para quê
Selic, Prefixado, IPCA+, RendA+ e Educa+: o que cada título faz bem, quanto custa investir e os erros que transformam o investimento mais simples do país em susto.
O Tesouro Direto costuma ser a primeira parada de quem sai da poupança, e por bons motivos: é acessível, transparente e tem o devedor de menor risco de crédito do país. Ainda assim, vejo muita gente investindo no título errado para o próprio objetivo. Este guia explica como investir no Tesouro Direto e, principalmente, para que serve cada título.
Em uma frase: o Tesouro Direto é o programa do Tesouro Nacional, em parceria com a B3, que permite a qualquer pessoa física comprar títulos públicos pela internet, a partir de valores na casa dos trinta reais. Ao comprar, você empresta dinheiro ao governo federal e recebe de volta com juros, conforme a regra do título escolhido.
Se a lógica de emprestar dinheiro e as famílias de remuneração (prefixado, pós-fixado e IPCA+) ainda são novidade para você, vale ler antes como funciona a renda fixa. Aqui eu parto dessa base e vou direto aos títulos.
O que o Tesouro Direto é (e o que ele não é)
O Tesouro Direto não é um investimento, é a prateleira. O investimento são os títulos públicos que ficam nela. Isso importa porque cada título tem regra, prazo e comportamento próprios, e a escolha certa depende do seu objetivo, não da taxa mais chamativa do dia.
Outro ponto que tranquiliza: os títulos não têm (nem precisam de) garantia do FGC. Quem garante o pagamento é o próprio Tesouro Nacional, e o governo federal emite a moeda em que deve. No quesito risco de calote, é o padrão de referência do mercado brasileiro.
Os títulos, um a um
- Tesouro Selic. Pós-fixado: rende a taxa Selic, dia após dia. É o título que menos oscila, por isso é o mais usado para reserva de emergência e para dinheiro que pode ser necessário a qualquer momento.
- Tesouro Prefixado. Taxa combinada na compra: você sabe exatamente quanto recebe no vencimento. Faz sentido para objetivos com data definida, quando a taxa oferecida já resolve a sua conta. Antes do vencimento, o preço oscila, e pode oscilar bastante.
- Tesouro IPCA+. Paga a inflação mais uma taxa fixa, o que garante ganho de poder de compra no vencimento. É a ferramenta clássica para objetivos longos, como aposentadoria. Também oscila antes do prazo, e os prazos costumam ser longos.
- Tesouro RendA+ e Educa+. Variações do IPCA+ com um desenho diferente: em vez de pagar tudo no vencimento, convertem o valor acumulado num fluxo de parcelas mensais (20 anos de renda no RendA+, 5 anos no Educa+, pensado para custear estudos). São títulos de propósito específico.
- Versões com juros semestrais. O Prefixado e o IPCA+ existem também em versões que pagam cupons a cada seis meses. Servem para quem quer renda periódica. Para quem está acumulando patrimônio, o cupom exige disciplina: se não for reinvestido, ele interrompe justamente o efeito que mais trabalha a seu favor, os juros compostos.
Como investir, na prática
O caminho tem quatro passos. Primeiro, tenha conta numa corretora ou banco habilitado no programa. A compra é feita pela plataforma da instituição ou pelo aplicativo oficial do Tesouro Direto. Segundo, escolha o título de trás para a frente: comece pelo objetivo e pelo prazo do dinheiro, e só então olhe a taxa. Terceiro, invista. Dá para comprar frações de título, com valores mínimos na casa dos trinta reais, o que torna o aporte mensal viável para qualquer orçamento. Quarto, de preferência, carregue até o vencimento: é no vencimento que a regra combinada se cumpre por inteiro.
E se precisar sair antes? O Tesouro recompra os títulos todos os dias úteis, então liquidez não é o problema. O ponto de atenção é o preço: a venda antecipada sai pelo valor de mercado do dia, a chamada marcação a mercado, que pode estar acima ou abaixo do que você pagou.
Título público se escolhe pelo objetivo do dinheiro, não pela taxa da vitrine.
Custos e imposto
Os custos são baixos e conhecidos. A B3 cobra taxa de custódia de 0,20% ao ano sobre o valor dos títulos. No Tesouro Selic, há isenção dessa taxa até R$ 10 mil por CPF. Desde o fim de 2024, essa cobrança acontece nas movimentações (no resgate, no vencimento ou no pagamento de cupom), e não mais em débitos semestrais. Muitas corretoras não cobram nada além disso, mas vale confirmar antes de abrir conta.
Sobre o imposto de renda: vale a tabela regressiva das aplicações de renda fixa, que começa em 22,5% sobre o rendimento (aplicações de até 180 dias) e cai até 15% (acima de 720 dias). O imposto é retido na fonte no resgate, no vencimento ou no pagamento de cupom. A regra premia a paciência, o que combina com a natureza desses títulos.
Os erros que eu mais vejo
- Comprar o título pela taxa, não pelo prazo. Um IPCA+ de 20 anos com taxa atraente é um bom instrumento para 2046, e uma péssima escolha para o dinheiro da reforma da casa no ano que vem.
- Vender no susto. Prefixado e IPCA+ oscilam no caminho. Quem entende a marcação a mercado atravessa a oscilação. Quem não entende vende no vermelho um título que pagaria tudo no vencimento.
- Deixar os cupons parados. Juros semestrais que não são reinvestidos viram dinheiro ocioso na conta da corretora e desligam a composição.
- Esquecer que o Tesouro Direto é só a prateleira. Ter "Tesouro Direto" não é ter um plano. A pergunta continua sendo qual função cada título cumpre na sua carteira.
O que fica
O Tesouro Direto democratizou o acesso ao investimento mais sólido do país, e trinta reais bastam para começar. O que separa quem usa bem de quem se frustra não é o valor investido, é o casamento entre título e objetivo. Escolha de trás para a frente, respeite o prazo do dinheiro e deixe o tempo cumprir a regra combinada. Simples não quer dizer simplório: quer dizer que sobra energia para o que importa, a disciplina de continuar.
Perguntas frequentes
Qual o valor mínimo para investir no Tesouro Direto?
É possível comprar frações de título a partir de valores na casa dos trinta reais. Isso torna o programa acessível para aportes mensais pequenos e constantes, que é como a maioria dos patrimônios de verdade se constrói.
O Tesouro Direto tem garantia do FGC?
Não, e não precisa. A garantia do FGC vale para produtos bancários, como CDB. Nos títulos públicos, quem garante o pagamento é o Tesouro Nacional, considerado o devedor de menor risco de crédito do mercado brasileiro, sem limite de valor.
Posso resgatar antes do vencimento?
Pode. O Tesouro recompra os títulos todos os dias úteis, e o dinheiro cai na conta da corretora em prazo curto. O cuidado é com o preço: a venda antecipada sai pelo valor de mercado do dia, que pode ser maior ou menor do que o valor investido, principalmente no Prefixado e no IPCA+.
Qual título é mais usado para reserva de emergência?
O Tesouro Selic, por duas características: acompanha a taxa básica de juros dia a dia e praticamente não oscila de preço, então o valor está lá quando o imprevisto chegar. É a função clássica desse título dentro de uma carteira.
Faz parte do tema Primeiros passos. Veja também como funciona a renda fixa.
Rafael Radaelli é analista CNPI e consultor de investimentos CVM. Atende com honorário transparente, sem comissão de banco, corretora ou gestora. Conheça a história dele →