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Comportamento Rafael RadaelliPor Rafael Radaelli · 6 min de leitura

O abismo comportamental: por que o investidor ganha menos que o próprio investimento

Existe uma distância silenciosa entre o quanto um investimento rende e o quanto o investidor de fato leva pra casa. Ela quase sempre é obra do próprio investidor.

Imagine um fundo que rendeu bem ao longo de dez anos. Agora imagine os investidores desse mesmo fundo. Parece contraintuitivo, mas o retorno médio que essas pessoas levaram para casa tende a ser menor do que o retorno do fundo em que investiram. A diferença tem nome: abismo comportamental. E é uma das ideias mais importantes de toda a educação financeira.

Em uma frase: o abismo comportamental é a distância entre o retorno de um investimento e o retorno que o investidor de fato obtém, e ela vem do comportamento (comprar depois que subiu, vender depois que caiu), não do investimento em si.

O ativo faz a parte dele. Quem costuma estragar o resultado é a mão que entra e sai na hora errada.

De onde vem o abismo

O retorno de um investimento é uma coisa. O retorno do investidor é outra, porque depende de quando ele entrou e saiu. E é aí que o comportamento cobra seu preço, sempre na mesma sequência:

  • Compra na euforia. O ativo já subiu bastante, virou assunto, todo mundo está ganhando. Aí a pessoa entra, perto do topo, movida pelo medo de ficar de fora.
  • Vende no medo. Veio a queda, o desconforto apertou, e a pessoa sai perto do fundo para estancar a dor.
  • Repete. Compra caro, vende barato, e refaz o ciclo com o próximo ativo da moda.

Some isso ao longo dos anos e o resultado é um investidor que, mesmo tendo escolhido bons ativos, ganhou bem menos do que eles renderam. O dinheiro estava na sala certa. A pessoa é que entrava e saía na hora errada.

O maior custo de uma carteira raramente é a taxa. É a distância entre o que o ativo rende e o que você deixa ele render.

O exemplo mais famoso: o fundo de Peter Lynch

Talvez o caso que melhor mostre isso seja o do fundo Magellan, gerido por Peter Lynch entre 1977 e 1990. Sob o comando dele, o fundo rendeu perto de 29% ao ano, um dos melhores desempenhos que um fundo de ações já teve. Um investimento excelente por qualquer critério.

E aqui está a parte que assombra: o próprio Lynch contava que boa parte das pessoas que investiram no Magellan saiu no prejuízo. Enquanto o fundo subia, elas entravam e saíam, compravam depois de uma alta, se assustavam na primeira queda e vendiam, e voltavam quando ele já tinha subido de novo. O fundo fez um trabalho brilhante. O comportamento de quem estava dentro dele é que estragou o resultado.

É o abismo comportamental em estado puro: o melhor fundo da época na mão e, ainda assim, prejuízo, porque a mão entrava e saía na hora errada.

Por que isso acontece com quase todo mundo

O abismo não é sinal de burrice, é sinal de que somos humanos. Ele nasce dos mesmos vieses do investidor que operam no automático: a aversão à perda, que faz doer mais perder do que ganhar, o efeito manada, que faz seguir a multidão, e a recência, que faz achar que o que subiu ontem vai subir amanhã. Nenhum desses gatilhos foi feito para investir bem. Eles foram feitos para nos manter vivos numa savana, e no mercado eles jogam contra.

É por isso que reconhecer o abismo é o primeiro passo para fechá-lo. Quem sabe que a própria cabeça é o ponto fraco constrói defesas contra ela.

Como fechar o abismo

A boa notícia: fechar o abismo comportamental não exige prever o mercado, exige domar o comportamento. Quatro hábitos fazem quase todo o trabalho:

  • Automatize os aportes. Investir todo mês um valor fixo, no automático, tira a emoção da decisão. Você compra caro às vezes e barato outras, e na média deixa de tentar adivinhar o momento.
  • Olhe menos. Quanto mais você acompanha a cotação, mais gatilhos aperta. Rever a carteira poucas vezes por ano decide melhor do que checar todo dia.
  • Tenha um plano escrito. Uma carteira montada por objetivos, com regras definidas na calma, é o que segura a sua mão quando o mercado tenta provocar uma reação.
  • Não persiga a moda. O ativo que todo mundo comenta já subiu. Perseguir o que brilhou ontem é a receita mais confiável de comprar caro.

No fundo, é a filosofia do value investing aplicada ao seu próprio comportamento: paciência, processo e a disposição de não fazer nada quando não fazer nada é a decisão certa. Some a isso o tempo, e os juros compostos trabalham sem interrupção, que é justamente o que o abismo costuma atrapalhar.

Os erros que eu mais vejo

  • Trocar de estratégia a cada ano. Cada troca reinicia o relógio da composição e costuma acontecer no pior momento, depois de uma decepção.
  • Confundir atividade com progresso. Mexer muito na carteira dá sensação de estar cuidando dela, quando quase sempre é o contrário.
  • Medir o sucesso pelo curto prazo. Julgar uma estratégia de anos pelo resultado de meses leva a abandoná-la justo antes de ela funcionar.
  • Achar que o abismo é problema dos outros. Todo mundo se acha racional com o próprio dinheiro. Reconhecer que não somos é o que permite se proteger.

O que fica

O abismo comportamental é a prova de que, em investimentos, o comportamento importa mais que a escolha do ativo. Você pode acertar o que comprar e ainda assim ganhar pouco, se entrar e sair nas horas erradas. A vantagem competitiva do investidor de longo prazo não é uma informação secreta nem um ativo genial, é a capacidade de se comportar bem quando a emoção pede o contrário. Feche o abismo, e boa parte do resultado se resolve sozinha.

Perguntas frequentes

O que é o abismo comportamental?

É a diferença entre o retorno de um investimento e o retorno que o investidor de fato obtém. Ela surge porque as pessoas tendem a comprar depois que o ativo subiu e vender depois que caiu, então o resultado real fica abaixo do que o próprio ativo rendeu no período.

Por que o investidor médio ganha menos que os índices?

Principalmente por comportamento: entrar na euforia, sair no medo, trocar de estratégia com frequência e perseguir o que já subiu. Não é falta de inteligência, são vieses naturais que jogam contra na hora de investir. Custos e impostos de tanto girar a carteira também pesam.

Como faço para reduzir esse abismo na minha carteira?

Automatize os aportes para tirar a emoção da decisão, acompanhe a carteira poucas vezes por ano, siga um plano escrito por objetivos e evite perseguir modas. São hábitos simples que atacam justamente os momentos em que a emoção costuma sabotar o resultado.

Investir sozinho aumenta o risco de cair no abismo?

Pode aumentar, porque sem um processo definido é mais fácil decidir no impulso. Não é regra, mas ter um método claro, ou alguém de fora que ajude a manter a disciplina, reduz a chance de reagir à emoção nos momentos decisivos.

Faz parte do tema Comportamento do investidor.

Rafael Radaelli

Rafael Radaelli é analista CNPI e consultor de investimentos CVM. Atende com honorário transparente, sem comissão de banco, corretora ou gestora. Conheça a história dele →