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Ações Rafael RadaelliPor Rafael Radaelli · 7 min de leitura

Como investir em ações no longo prazo

Uma ação é um pedaço de um negócio de verdade. Quando essa ideia entra, quase tudo o que assusta na bolsa muda de figura.

Quem pesquisa como investir em ações costuma encontrar dois extremos: o mundo dos gráficos, sinais e promessas de dinheiro rápido, e o medo puro e simples de "perder tudo na bolsa". Este artigo não pertence a nenhum dos dois. O jeito que eu pratico e ensino é o terceiro caminho, o mais antigo e o menos barulhento: comprar ações como quem compra participação num negócio.

Em uma frase: investir em ações no longo prazo é escolher empresas boas, compreensíveis e financeiramente sólidas, pagar por elas um preço justo ou descontado e permanecer sócio por anos, deixando os lucros do negócio trabalharem por você.

O resto deste texto desdobra essa frase, na ordem em que ela precisa ser entendida.

Ação é sociedade, não aposta

Uma ação é uma fração do capital de uma empresa. Quem compra vira sócio: passa a ter direito a uma parte dos lucros, distribuídos como dividendos ou reinvestidos no próprio negócio para ele crescer. Esse é o motor real do retorno de quem investe em ações. A cotação da tela é só o preço pelo qual outros sócios estão negociando as suas frações hoje.

Benjamin Graham, o pai do value investing, criou uma imagem que uso sempre: o Sr. Mercado é um sócio bipolar que todo dia bate na sua porta oferecendo comprar a sua parte ou vender a dele, por um preço que muda com o humor. Você não é obrigado a negociar com ele. O investidor de longo prazo usa o Sr. Mercado quando os preços interessam e o ignora no resto do tempo. É a base da filosofia que explico no pilar value investing.

Por que o longo prazo é a sua vantagem

No curto prazo, o preço de uma ação reflete humor, notícia e fluxo. No longo prazo, ele tende a acompanhar o que o negócio de fato entrega: lucros, crescimento, geração de caixa. O investidor pessoa física não ganha do mercado em velocidade de informação, mas tem uma vantagem que os profissionais pressionados por resultado trimestral não têm: pode esperar.

E a espera tem um aliado silencioso. Lucros reinvestidos geram mais lucros, dividendos reaplicados compram mais participação, e o efeito se compõe ano após ano. Prazo, nesse método, não é o tempo que você aguenta segurar: é a matéria-prima do resultado.

No curto prazo o mercado vota. No longo prazo, ele pesa.

Como escolher: o método do sócio

Escolher ações com mentalidade de sócio se resume a três perguntas, nesta ordem:

  • Eu entendo esse negócio? Se você não sabe explicar em duas frases como a empresa ganha dinheiro, ela está fora do seu círculo de competência, por melhor que pareça. Sobra muita empresa boa dentro do que você entende.
  • O negócio é bom? Lucro consistente ao longo dos anos, dívida sob controle, rentabilidade decente e alguma vantagem competitiva que proteja tudo isso da concorrência. É o trabalho da análise fundamentalista: avaliar a empresa, não o gráfico.
  • O preço é razoável? Empresa excelente a preço absurdo é um investimento ruim. Estimar quanto um negócio vale é o trabalho do valuation, e a disciplina de pagar menos do que esse valor, com folga para o erro e o azar, é a margem de segurança, a ideia mais importante de toda a escola.

Repare no que não entrou: previsão de cotação, timing de entrada perfeito, dica quente. Nada disso sobrevive a uma década. As três perguntas, sim.

Os erros que eu mais vejo

  • Comprar pela dica. Sem entender o negócio, qualquer queda vira desespero, porque você não sabe se a empresa piorou ou se só o preço caiu.
  • Confundir empresa boa com compra a qualquer preço. Qualidade não dispensa a pergunta do valor. Pagar caro demais transforma um ótimo negócio num mau investimento.
  • Olhar a cotação todo dia. O preço na tela pede reação. O negócio pede paciência. Quem acompanha o patrimônio pela cotação diária acaba negociando com o Sr. Mercado nos piores termos dele.
  • Girar a carteira. Comprar e vender toda hora gera custo, imposto e, principalmente, interrompe a composição. O dinheiro grande do longo prazo se faz permanecendo sócio, não trocando de sociedade.

O que fica

Investir em ações no longo prazo não exige genialidade. Exige uma ideia bem digerida e disciplina para sustentá-la. A ideia: ação é participação num negócio, e o retorno de quem é sócio vem do lucro que o negócio gera ao longo dos anos. A disciplina: entender o que se compra, exigir preço razoável e não deixar o humor do mercado decidir por você. O tempo cuida do resto, desde que você deixe.

Perguntas frequentes

Preciso de muito dinheiro para investir em ações?

Não. No mercado fracionário da bolsa brasileira é possível comprar uma única ação por vez, e muitas custam menos que um almoço. O que constrói patrimônio é a constância do aporte e o tempo de permanência, não o tamanho do primeiro investimento.

Investir em ações é muito arriscado?

Ações oscilam, e oscilação incomoda, mas o risco real de perda permanente vem de outra tríade: pagar caro demais, escolher negócios frágeis e precisar do dinheiro no prazo errado. Método e prazo adequados atacam exatamente esses três pontos. Oscilação sem venda não é prejuízo, é o preço de ser sócio.

Quantas ações devo ter na carteira?

Não existe número mágico. O princípio é diversificar entre empresas e setores o suficiente para que um erro não comprometa o conjunto, sem pulverizar a ponto de não conseguir acompanhar o que você tem. Poucas posições bem entendidas superam dezenas de posições desconhecidas.

Os dividendos são garantidos?

Não. Dividendos dependem do lucro da empresa e das decisões dela sobre o que distribuir e o que reinvestir. Empresas maduras e lucrativas tendem a distribuir com regularidade, mas isso é característica do negócio, nunca uma promessa. Desconfie de qualquer conta que trate dividendo futuro como certeza.

Faz parte do tema Value investing. Veja também quando vender uma ação.

Rafael Radaelli

Rafael Radaelli é analista CNPI e consultor de investimentos CVM. Atende com honorário transparente, sem comissão de banco, corretora ou gestora. Conheça a história dele →